Filosofia da Linguagem de Bakhtin - Conceitos básicos
Alguns conceitos básicos nos ajudam
a construir uma noção dos fundamentos da teoria da linguagem de Bakhtin. Para
os limites deste trabalho, buscamos destacaros conceitos de ideologia, linguagem, língua, dialogiae vozes discursivas. Vale destacar que Bakhtin é um autor que buscou
construir uma ponte entre o marxismo e a teoria da linguagem. Por essa razão,
podemos perceber em sua obra a ideia de que o meio histórico-social condiciona
o indivíduo. Se para Marx esse condicionamento se dava por meio das relações
econômicas de produção, para Bakhtin algo semelhante pode ocorrer por meio das
relações da linguagem. Apresentamos primeiramente o conceito de ideologia, pois
este nos ajuda a compreender a forma como Bakhtin trata os demais
conceitos.
A IDEOLOGIA
Para Bakhtin, a ideologia é um
conjunto de valores, ideias e visões de mundo, construído socialmente,
pertencente a um contexto histórico, que ganha sentido e representação por meio
da linguagem. A ideologia é, portanto, uma construção social, não se reduzindo
nunca ao pensamento de um único indivíduo. Ela pode exercer a função de
organizar e regular as relações sociais, que são sempre historicamente e
culturalmente situadas. Uma vez que a ideologia pode ser representada pelos
signos, os próprios signos da linguagem ganham um caráter ideológico. Em outras
palavras, os símbolos e códigos que o ser humano utiliza para se comunicar
contêm uma determinada forma de interpretar o mundo. Desse modo, as palavras
não são apenas referentes neutros dos objetos reais, mas são também uma forma
pela qual um grupo social escolhe representar a realidade.
A LINGUAGEM
Uma vez
compreendida a importância da ideologia na teoria de Bakhtin, torna-se mais
fácil entender algumas características que esse autor atribui à linguagem. Para
Bakhtin, a linguagem não é apenas um sistema abstrato de símbolos que contém
uma lógica própria. Ela deve ser compreendida também – e talvez principalmente
– como uma atividade humana concreta, viva e social. Nesse sentido, Bakhtin se
aproxima mais da sociolinguística (área da linguística que busca estabelecer as
conexões entre a linguagem e a sociedade), pois não fica restrito ao
estruturalismo (área da linguística que busca estudar a estrutura e a lógica
interna da língua), embora também valorize os estudos dessa natureza (DI FANTI,
2003, p. 97).
Por ser considerada uma atividade
social humana, a linguagem deixa de ser tratada apenas como sistema de
representação do mundo, e passa a ser vista também como fonte de
expressividade, atitudes e valores dos sujeitos ou dos grupos sociais. Ou seja,
a linguagem para Bakhtin não é neutra, ela é valorativa. Para Bakhtin, a
linguagem é composta de duas dimensões básicas: os enunciados (a dimensão mais material,
aquela que torna concreto todo ato de comunicação humana) e o sistema
linguístico (a dimensão mais abstrata, aquela que pode ser considerada a parte
lógica-estrutural da língua). É na conexão entre essas duas dimensões da
linguagem que podemos entender como ela se conecta com as condições históricas
e sociais.
Em síntese, para Bakhtin, a
linguagem constitui não apenas um conjunto de símbolos e representações, mas
também um ponto de vista sobre o mundo, e ela carrega a ideologia, a
intencionalidade, as atitudes e os valores perante o mundo como características
inerentes à própria comunicação.
A LÍNGUA
A língua é para Bakhtin um sistema
linguístico-ideológico. Ela corresponde à materialização da linguagem humana
verbalizada.Enquanto a linguagem corresponde à atividade social da comunicação,
a língua é o sistema pelo qual se comunica, mas que carrega consigo as
características inerentes ao ato de comunicar-se, que é um ato social e
histórico. Em outras palavras, a língua é um sistema que carrega consigo as
características da linguagem – esta que é ideológica, intencional e valorativa.
Podemos dizer que a língua não representa apenas os objetos reais de forma
direta – ela também representa o contexto social mais amplo no qual está
inserida.
A DIALOGIA (OU DIALOGISMO)
Este é um dos conceitos fundamentais
na teoria de Bakhtin. Na visão do autor, a vida é essencialmente dialógica, ou
seja, marcada constantemente pelo encontro do “eu” com o “outro”. Podemos dizer
que o ser humano é um ser social que se constrói no diálogo com o outro. Nesse
sentido, o “outro” é fundamental para a própria formação do “eu”. Nesse
diálogo, diferentes vozes falam, e diferentes visões de mundo se expressam. O
conceito de dialogia corresponde à atividade do diálogo, a esse encontro do
“eu” com o “outro” por meio da linguagem, a partir de um dado contexto social.
A dialogia é o confronto das diferentes ideologias ou sistemas de valores que
participam da comunicação. O conceito de dialogia está intimamente ligado a
outro conceito – o de vozes discursivas.
Di Fanti (2003) destaca que o
princípio dialógico é a base da teoria da linguagem de Bakhtin. Segundo a
autora, tal concepção de linguagem visa preservar e promover as características
da inclusão, da diversidade e do respeito à diferença na análise do discurso
(DI FANTI, 2003, p. 97). A mesma autora destaca ainda o que podemos entender a
respeito da expressão “relações dialógicas” utilizada por Bakhtin:
“Observa-se, sob esse enfoque, que as relações dialógicas são apreendidas discursivamente, na língua enquanto fenômeno integral concreto, sem que se desconsidere as relações lógicas. Logo, a tensão entre relações dialógicas e lógicas indica que a linguagem somente tem vida na comunicação dialógica, comunicação de sentidos, que constitui o seu campo de existência” (DI FANTI, 2003, p. 98).
Em
síntese, as relações dialógicas são aquelas que dão vida e sentido à linguagem,
e elas se constituem discursivamente. É por isso que o discurso é o objeto de
estudo de Bakhtin, e não apenas a língua enquanto código abstrato dotado de
relações lógicas. Em outras palavras, as relações lógicas da língua, embora
sejam relevantes, não são suficientes para compreender o fenômeno da
comunicação humana, pois este ocorre de forma dialógica, a partir da interação
das diferentes vozes sociais, e não apenas de forma lógica, estruturada e
previsível.
Di Fanti (2003) também destaca a
importância dos efeitos de sentido na teoria de Bakhtin. A autora aponta que os
sentidos são construídos socialmente e a partir do diálogo com o outro. Embora
em algumas situações seja possível identificarmos sentidos predominantes, de
modo geral os sentidos não ficam restritos a uma única possibilidade. Para
Bakhtin, o indivíduo não é a fonte única e absoluta dos sentidos dos enunciados.
Para o autor, os sujeitos e os sentidos constroem-se mutuamente e socialmente,
em um dado contexto, em uma dada esfera de atividade humana. Ou seja, os
sujeitos, coletivamente, produzem sentidos que são compartilhados por meio da
linguagem, e por outro lado, os sentidos socialmente estabelecidos fazem parte
da formação dos sujeitos. (DI FANTI, 2003, p. 98).
No discurso encontram-se as
diferentes relações de sentido, e por isso ele é dialógico por essência. Essas
diferentes relações de sentido são produzidas pelo que Bakhtin denomina “vozes
discursivas”.
AS VOZES DISCURSIVAS
Segundo Di Fanti (2003), as vozes
discursivas são as posições que constituem o discurso. E como o discurso é uma
construção social, historicamente situada, as vozes discursivas representam as
diferentes vozes sociais que falam através da língua. Dessa forma, a língua tem
um caráter essencialmente plural, mesmo no interior de uma mesma cultura, povo
ou nação. Essa característica pode ser denominada como “pluralismo linguístico”.
A autora complementa:
“Essa característica da linguagem de ser “plural” rompe com a hegemonia de qualquer “linguagem única da verdade” ou da “língua oficial” em dada sociedade. É uma dimensão que rejeita a “ossificação e a estagnação do pensamento” (CLARK & HOLQUIST, 1998 [1984], p. 49) a uma só possibilidade, como a de uma “língua padrão”, “culta”, sem considerar as variedades” (DI FANTI, 2003, p. 102).
A língua para Bakhtin não é uma
codificação fixa e absoluta. Pelo contrário, na visão desse autor, a língua e a
linguagem são sempre contextuais, locais, e estão sempre em movimento (são
dinâmicas), justamente pelo fato de serem atravessadas pelas diferentes vozes
sociais. As vozes sociais, então, são precisamente o aspecto da comunicação
humana que garante à linguagem a sua diversidade. E esse diversidade pode ser
simbólica (com relação aos signos utilizados na representação do mundo) e/ou
ideológica (com relação à visão e à valoração do mundo), uma vez que a
linguagem é composta por essas duas dimensões.
Nenhum comentário:
Postar um comentário